Cecília Carvalho
Nasci em Belo Horizonte - MG e moro na Bahia há 18 anos. Sou mãe de Joaquim, Tereza e Obi. Além disso, sou artista, produtora cultural, massoterapeuta e voluntária na Biblioteca Comunitária do Vale do Capão (Chapada Diamantina, BA). Desde 2010 sou bacharela em Interpretação Teatral pela Escola de Teatro da UFBA e entre 2021 e 2024 fiz parte da Coletiva Mãe Artista. Como artista, participei de grupos, residências e criações em linguagens diversas (teatro, performance, literatura etc.) e, a partir do contexto da pandemia de Covid-19, passei a me dedicar principalmente à fotoperformance e à escrita poética. Meu trabalho é quase sempre autobiográfico e tem sido permeado por questões relacionadas a maternidade, gênero, ancestralidade e pertencimento. Gosto de dançar com o corpo, as palavras e as emoções para escutar melhor a mim e ao mundo.
Corpo-mãe sobre tralha - 2021
Fotoperformence (fotografia digital em celular)/ 05 fotografias apresentadas de um total de 11.
"Corpo-mãe sobre tralha" é uma série de fotoperformance composta por 8 imagens, realizada em 2021. Sua feitura é impregnada pelo percurso de um puerpério vivenciado parcialmente durante a pandemia da Covid-19 (minha filha mais nova nasceu em 2019). Foi feita de madrugada, único momento possível para que eu pudesse produzir artisticamente sendo mãe solo de uma criança pequena, uma pré-adolescente e um adolescente. A série traz sensações e questionamentos sobre o trabalho invisível e interminável da maternidade. A lida doméstica como papel indissociável da mulher, sendo, ainda, multiplicada quando nos referimos à mulher-mãe. O zelo abnegado com a casa e os objetos da família como sinônimo maior de amor. A doação incondicional como característica intrinsicamente feminina e maternal. A holografia do suposto instinto materno projetada sobre nós. Este trabalho é sobre tentar lidar com a contradição e o dilema de amar as crias e odiar a lida materna – ou ao menos vários de seus aspectos. É sobre afogar-se nisso tudo e num mar de afeto ao mesmo tempo e, enquanto isso, ser capaz de recolher cacos, estilhaços e tesouros do corpo rompido que deu lugar a este corpo-mãe.
Mulher Sem Cabeça Lavando a Roupa Suja - 2021
Fotoperformence (fotografia digital em celular) com a colaboração de Paulo Quintero/05 fotografias apresentadas de um total de 08.
A Mulher Sem Cabeça surgiu com a série Mulher Sem Cabeça Organizando Seu Lar. Surgiu não, mas ganhou nome. Ela me acompanha desde o nascimento do meu filho mais velho, quando eu tinha 18 anos. Tanto nessa primeira série de fotoperformance quanto em “Mulher Sem Cabeça Lavando a Roupa Suja”, as feições apagadas corporificam a invisibilidade do ser mãe na sociedade ocidental, o sequestro da personalidade, do próprio ser no mundo e a sobrecarga de tarefas intermináveis que apenas serão reconhecidas quando não forem feitas – e, nesse caso, a culpada será muito bem identificada e apontada. O sufocamento desse rosto, seja por um balde, por um cobertor de criança ou por um movimento de quem não aguenta mais e deseja se esconder coloca, por um lado, a corpa em crise numa posição de evidência. Por outro, a torna suporte genérico para que solte o grito silenciado de outras tantas gargantas maternas, despersonalizando questões que extrapolam a experiência individual por serem estruturantes da sociedade patriarcal capitalista em que vivemos. Nesta série, a Mulher Sem Cabeça se vê presa ao tanque, à máquina, a tanta roupa suja pra lavar. Se depara com a sua própria necessidade de se lavar por dentro, deixar escoar culpas, choros, os saldos das relações mal resolvidas, a exaustão... sem, no entanto, encontrar um tempo-espaço para si mesma onde seja possível elaborar e equalizar tudo. A Mulher Sem Cabeça, então, abraça o caos e faz tudo ao mesmo tempo: ao esgarçar sua obrigação silenciosa de mulher mãe, a torna estridente. Faz do que a sufoca, impulso de criação. E assim também foi e tem sido meu processo de criação, colocando este corpo-mãe em evidência para que ele possa falar, dançar, gritar sobre as estruturas.









