Mari Queiroz

Mari Queiroz (São Paulo, 1967) é pós-graduada em Práticas Artísticas Contemporâneas (FAAP, 2022) e tem licenciatura em Educação Artística (Escola de Comunicações e Artes da USP,1989). Começou sua trajetória no fotojornalismo, foi assistente de fotografia e fotógrafa no Estúdio Abril nas décadas de 1990/2000. Participou das exposições Todo Corpo em Deslocamento tem Trajetória (Diário Contemporâneo de Fotografia, 2024), Um Retrato Para o Novo Mundo (Centro Cultural Casa da Luz, 2021) e A Menina Mais Feia da Turma (Ateliê 397, 2019), entre outras. Partindo da imagem fotográfica investiga as relações entre corpo, silenciamento e memória. Utiliza-se da sobreposição de materiais e do diálogo entre imagem e texto para transformar o registro fotográfico em algo subjetivo, amortecendo o significado dos sujeitos originais. Criando auto ficções, subverte a ideia do arquivo e da memória como lugares neutros. Vive e trabalha em São Paulo.

Captured with Slow Shutter Cam for iOS

Desalinho - 2017-2018

Pigmento mineral sobre papel arroz e bordado. 10 fotos  (20 imagens na série: https://mariqueiroz.com.br/fineart#/desalinho)

Desalinho é um trabalho que quebra o silêncio sobre o vazio desmedido que se abre com a morte prematura de um filho. A proposta de falar sobre algo tão doloroso tornou-se possível somente através de uma estratégia de espelhamento: fotografar o corpo de outra mulher, fragmentá-lo em pedaços e costurá-lo novamente, com pontos cirúrgicos, a fim de nomear o abismo do indizível. 

A série se debruça sobre esse vazio devastador e solitário. A utilização do bordado como fio condutor da narrativa, quase invisível na pequenez dos pontos, obriga o espectador a se aproximar a fim de constatar sua existência. Através da repetição e da fragmentação das imagens do corpo feminino, da perfuração do papel e do alinhavo dos silêncios, a narrativa encoberta se torna presente no volume discreto da linha escura sobre o papel de arroz. Esse trabalho lento e preciso é a metáfora de um tempo que passa, um tempo que volta sobre si sem jamais se repetir, como o movimento contínuo da agulha perfurando o papel uma e outra vez. 

O bordado é uma atividade tradicional, pertencente ao mundo privado da domesticidade feminina. As questões relativas à maternidade também são vistas como sendo do âmbito doméstico (portanto desimportantes) e excluídas da esfera pública. Em uma sociedade assentada sobre o critério único da produtividade, a perda de um bebê ainda carrega consigo, além do sofrimento calado, uma dimensão de fracasso por parte da mulher, incapaz de cumprir sua função procriadora adequadamente; ela torna-se então um corpo disfuncional e culpado. Um corpo que provoca sussurros e olhares constrangidos com sua presença despedaçada. Um corpo incômodo. 

Cabe à mulher lidar com a vida privada. Cabe à mulher carregar a morte nos braços. Os homens são excluídos dessa lógica, assumindo o lugar masculino tradicional ao cuidar da vida prática e da vida pública. A perda de um bebê é o avesso da lógica, não se inscreve no registro comum. Isso faz com que essa morte seja a menos aceita e a mais silenciada. Nomear essa filha imprecisa faz com que ela ainda seja - pronunciar seu nome, trazer a cicatriz à luz quebrando o silêncio, recupera sua existência. Desvelar essa experiência compartilhada clandestinamente por tantas e levá-la ao espaço público, transformando o silêncio em linguagem e ação, nos faz tecido coletivo (LORDE,1977).