Priscila Cunaccia

Priscila Cunaccia é fotógrafa, jornalista e pesquisadora independente. Formada em fotografia pelo Espaço F/508 de Cultura, sua trajetória combina a experiência no jornalismo com uma abordagem autoral voltada à imagem como forma de investigação e narrativa.

Mãe de Malu, Priscila parte das vivências domésticas para tensionar o cotidiano e seus gestos mínimos, revelando as camadas subjetivas e sociais da experiência materna. Em sua produção, o documental e o experimental se entrelaçam, resultando em obras que transitam entre a fabulação e a memória, entre o real e o simbólico.

Seu interesse reside na maternidade enquanto território de inscrição, subversão e disputa. Dialoga com a tradição de mulheres fotógrafas que reivindicam a própria imagem como meio de resistência e autoinscrição.

Seus projetos frequentemente partem de histórias pessoais e se expandem para um olhar coletivo, abordando a maternidade não apenas como experiência individual, mas como fenômeno social e político.

priscila cunaccia (1)

Atravesso-me - 2021-2025

Série de 7 fotografias

Antes da maternidade, meus pés devoravam o mundo. Caminhavam com pressa, carregando um corpo que parecia inteiro, autônomo, suficiente em si. Hoje, minha filha os alimenta com todos os feitiços que põe em prática. Eu, instintivamente, tento corrigi-la: "Mas, filha, pé não come!". Ela, porém, persiste. Insiste. Repete. Repete, até que o resultado seja outro.

Esse gesto ecoa as camadas invisíveis do meu maternar: a nutrição que transborda o corpo e se inscreve no espírito, a inversão de papeis entre quem cuida e quem é cuidada, a dissolução da linearidade do tempo. Se, por vezes, meus pensamentos sussurram que preciso cavar fundo para resgatar quem um dia fui, Malu, com sua sapiência, dissolve essa busca nostálgica.

A maternidade me atravessa como linguagem, como política, como corpo. É experiência que me inscreve na história de outras mulheres – artistas, mães, ancestrais – que, ao longo dos séculos, resistiram à tentativa de silenciamento. Como na fotografia, onde a luz revela e a sombra esconde, a maternidade se inscreve entre o visível e o invisível, entre a presença e a anulação. É território de construção e disputa, onde a imagem da mãe se vê ora sacralizada, ora apagada, ora instrumentalizada.

Ao nutrir meus pés – e minha alma –, minha filha me mostra que não há lacunas a preencher, nem identidade a recuperar. Sou, ao mesmo tempo, origem e continuidade, registro e reinvenção. Não preciso reinventar o significado da matrioska. Não há que resgatar quem se é porque, a todo momento, eu sou o resultado do que também já fui.

Noventa (e três) - 2023

Série de 3 fotografias

"Noventa (e três)" é um ensaio sobre laços, mas também sobre lacunas. A relação entre bisavó e bisneta não é apenas um elo geracional, mas um gesto de continuidade que se inscreve no corpo, no toque e na partilha cotidiana. Aos 93 anos, ela é a única rede de apoio disponível.

Há algo de sagrado nesse encontro, um pacto de continuidade que só as mulheres entendem. Bisavó e bisneta depositam histórias nessa comunhão, como quem se deita sobre séculos de memórias que as antecedem. O que se aprende nesse contato? Provavelmente, que o amor pode ser resistência. E que o tempo, dobrado sobre si, encontra formas de se refazer. Que entre a infância e a velhice há um abismo que só o cuidado pode atravessar.

Entre retratos e silêncios, "Noventa (e três) testemunha essa cumplicidade, mas também evidencia uma estrutura que cobra da mulher um equilíbrio impossível entre o maternar e o existir. Enquanto a sociedade seguir tratando a parentalidade como uma responsabilidade exclusivamente privada, mulheres continuarão sustentando mulheres, enquanto o mundo assiste.