Valéria Mendonça
Trabalhou por 15 anos na revista de cultura Bravo!, 9 anos como editora de fotografia da revista na Editora Abril. Produziu vinhetas para o canal Arte 1, editorial de fotografia para revista Casa Vogue, capa de livro, vinheta de abertura da série da tv Cultura Transversal do Tempo.
Seu ponto de interesse são os arquivos fotográficos descartados no qual faz intervenções criando novas histórias em novos mundos, as questões femininas presentes em todos seus trabalhos. Desde 2014 participa de grupos de estudos do Ateliê Fotô. Fez produção editorial para fotolivros de artistas indígenas como Hêmba de Edgar Kanaykó Xakriabá e o fotolivro Corpos Terra de Priscila Tapajoara, Sandrieli Kaiowá e Vanessa Pataxó, editados pela editora Fotô Editoral em 2023 e 2024.
Participou de três Residências artísticas do Acho Imagem/rama produzindo dois fotofilmes: Córebro e O Dia em que Engarrafei o Mar e o ensaio Mulheres-casulo, reflexões sobre mulheres, violência e metamorfose. Na última residência em 2024 produziu o fotolivro Por um fio cuja exposição começou no Ateliê Casa em Campinas, depois em em Braga em Portugal no museu a Nogueira da Silva e na Casa da Cidadania e da Língua em Coimbra. Participa da quarta residência ainda em processo de trabalho.
Participa atualmente do Projeto Biota com uma equipe de universidades brasileiras com pesquisas em Itanhaém, litoral sul de São Paulo. Um grande projeto ambiental. Pesquisa a realidade das mulheres que vendem camarão no píer da cidade com a intenção de produzir um trabalho artístico em conjunto com elas. Projeto aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Encantamento - 2025
Fotografias/10
Enquanto meu filho girava entorno da árvore, olhava pra cima para ver o sol. Bastava um graveto na mão, o mar logo ali na frente e a inquietação de criar e olhar muitas possiblidades de mundos e de imaginação. Eu assistia a cena fazendo perguntas sobre o tempo, esse tempo que vem ao nosso encontro. Fui aprendendo que meu corpo materno teria que viver ajustes diários, vivendo o encanto, a tristeza, a beleza, a dúvida, a falta, além de ter a tarefa de criar um homem respeitoso, amoroso em relação às mulheres do mundo. SInto essa explosão de sentimentos, toda essa potência e responsabilidade, mas vivo em conexão com todas as mulheres. Essa potência precisa continuar lutando contra a condição social feminina que necessita ainda de muita mudança.
Córebro - 2021
(coração+cérebro) Dispositivo que guarda o segredo do mundo/colagem e fusão de negativo com fotos/. Enquanto eu pensava nos arquivos órfãos, achei um caroço de abacate no almoço de domingo. Pensei: vai para o lixo ou vai para terra? Decidi que iria para a terra, lugar vivo de fungos, bactérias e coloquei o nome de Córebro (coração+cérebro). E le passou a ser o meu dispositivo que guardava todo o invisível do mundo. Resolvi então implantá-lo em muitas das fotografias, nos corpos de imagens de mulheres, uma comunhão de mulheres.
Fotografei ele pequeno, maior e maior, e não parei de pensar no invisível das coisas do mundo. Os micro-organismos da terra em conexão com os micro-organismos das fotos dos arquivos junto a fertilidade das mulheres. Quando falo de fertilidade, não falo somente de parir, falo da potência ativa e poética que as mulheres conseguem ter ao se relacionarem com as questões pulsantes da vida.









