Ale Baldissarelli
Alessandra Baldissarelli Bremm é mãe da Annabelle e da Angelina. É Licenciada em Artes Visuais - UCS, Mestre em Arte Educação (UFRGS) e em Arte Contemporânea (Universiteit Leiden - Holanda). Tem experiência no ensino de arte e na produção cultural no Brasil e na Holanda. Desde 2010, participa de exposições individuais e coletivas problematizando inicialmente as relações entre a arte e educação em contextos institucionais públicos e privados. Após tornar- se mãe em 2020, e ver-se em um mundo que idealiza e romantiza a maternidade, a artista percebeu a arte como uma plataforma para tensionar as relações entre o maternar enquanto prática social e política com a estética relacional e a estética do meio ambiente (conceitos explorados em suas pesquisas acadêmicas). Essas pesquisas teórico-artísticas vem se traduzindo em práticas que exploram diferentes materiais e linguagens para a criação de vídeos, fotografias, performances e instalações multimídia.
Uma mãe vê a outra vê (…) - 2024
Fotografias digitais em P/B./ 10 fotos. Após vivenciar em meu corpo uma experiência tão visceral como a de tornar-me mãe e perceber-me em um mundo que tende a idealizar ou romantizar as experiências maternas, senti a necessidade de ressignificar minha prática artística ao dar vazão ao que meu corpo comunica todos os dias no espaço-tempo do ambiente materno. Nesse sentido, minha figura de mãe-artista está inserida em todas fotografias, performando cenas com outras mães em seus ambientes maternos. Porém, essa série não é sobre mim, nem sobre um, é sobre o plural. A maternidade aqui é vista não apenas como um tema para a arte contemporânea, mas um estado que afeta nossa experiência artística/estética com o mundo.
Assim, exploro essa estética da existência materna ao relacionar-me de forma artística com a realidade de outras mães, produzindo as fotografias em preto e branco que compõem essa série. Nessas imagens exploro a expressão “eu vejo a sua maternidade na minha” ao inserir-me no ambiente materno de outras mães para retratá-las, ao mesmo tempo em que me reflito em sua silhueta através do meu reflexo em um vidro que elas seguram nas mãos. No espaço expositivo, a forma com que as fotografias são montadas (com uma chapa de acrílico transparente instalada em frente a cada fotografia de modo a criar um espaço de presença e encontro entre a obra, o espaço expositivo e o expectador) convida o público a também ver a sua imagem refletida na silhueta das mães.
Algumas referências:
O conceito de meio ambiente aparece, nessa série, em sua configuração contextual, que considera uma abertura e expansão do caráter de apreciação além das artes para considerar dimensões de nossa vida cotidiana como um constituinte intrínseco da experiência estética. Assim, cenários e espaços cotidianos maternos integram um sentido expandido de ambiente que inclui não apenas as dimensões da natureza, mas também as sociais e culturais, apontando para a extensão e multiplicidade das relações humanas no mundo, em direção a uma relação mais íntima em nossa vida cotidiana. Abordei essa relação ampliada da estética do meio ambiente em minha dissertação de mestrado: Inhabiting the Environment through Art: the work of Dan Graham and Olafur Eliasson in Inhotim Institute as Instances of Environmental Aesthetics, pela Universidade de Leiden, Holanda, 2018. Disponível em: https://hdl.handle.net/1887/76773.
Nessa série, a estética relacional considera a experiência materna na prática artística a partir dos estudos da artista e pesquisadora holandesa Deirdre M. Donoghue que criou o termo “Maternal relational aesth-ethics” (est-ética relacional materna - em tradução livre) para se referir a uma tecelagem interdisciplinar de estética, ética e experiências maternas como uma abordagem distinta para a criação artística. Este termo aborda o crescente número de mães-artistas cujos processos artísticos se envolvem com suas experiências e subjetividades maternas. Disponível em: DONOGHUE, Deirdre M. “In Search oh The Maternal: Towards Microchimeric Bodies and Maternal Relational Aesth-ethics”. Capítulo do livro “Inappropriate Bodies: Art, Design, and Maternity, 2019, Demeter Press, Canada.
Refiro-me aos estudos de Michel Foucault ao citar a expressão “estética da existência”. FOUCAULT, Michel. Hermenêutica do Sujeito. São Paulo. Martins Fontes. 2004.








