Daniela Balestrin

Daniela Balestrin nasceu em Chapecó, Santa Catarina, em 1984. Desde 2020, vem desenvolvendo seu trabalho como artista multidisciplinar, utilizando técnicas analógicas e históricas na criação de imagens, além da escrita. Em suas obras, busca abordar os eventos que se entrelaçam com seu cotidiano, criando narrativas que envolvem os movimentos da vida e da imaginação, atravessando memória e ficção, imagem e palavra. Foi selecionada para o prêmio Nova Fotografia 2024 pelo Museu da Imagem e do Som do Estado de São Paulo (Brasil) e também está na shortlist do Sony World Photography Awards 2024 na categoria Professional Creative. Em 2023, recebeu o prêmio de Non-Professional Analog Photographer of the Year do IPA - International Photography Awards e foi finalista na categoria Discovery of the Year no Lucie Awards. Seu trabalho já foi exibido em diversas exposições coletivas ao redor do mundo e recentemente teve sua primeira exposição individual no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (Brasil), apresentando a obra "Onde termina a árvore e começa o resto do mundo?”.

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Thereza - 2024

Dados Técnicos: Série de cianótipos realizados em papel algodão a partir de negativos digitais com interferência, em tamanhos diversos.

Quantidades de imagens/obras: 40

Por quase quarenta anos, ouvi uma das minhas ancestrais ser chamada apenas como “a mãe morta do vô”. Desconhecia seu nome. Não havia qualquer imagem sua. Seu ser, sua história, estavam reduzidas a essa sentença.  Ao ouvir dela e ouvir tão pouco, tentava adivinhar seu nome, e imaginava que ele havia se perdido num dos golpes do destino de meu avô. 

No ano passado, enquanto eu organizava uma gaveta na casa onde cresci, de maneira inesperada, seu nome emergiu. Por muito tempo, talvez todo esse tempo, ele esteve ao alcance de todas as mãos da família. Um papel com letras nítidas, por sua própria vontade, trouxe de volta o nome negado por décadas: Thereza.

Depois chegaram outros documentos contando que a morte lhe aconteceu aos 32 anos de idade, quando foi vítima de febre puerperal, uma infecção que teve início no parto do meu avô. Ela morreu quando se fez do seu corpo um corpo de mãe e todo o mais desapareceu. Não havia uma única narrativa além dessa única sentença que é dita quando se diz dela.

Toda essa falta moveu a criação de imagens em que eu pudesse guardar Thereza, em que pudesse me encontrar com ela e em que seu nome regressasse aos olhos e às bocas. Cheguei à cianotipia por todo o contato que a técnica convoca. O contato material entre os suportes sensíveis e a luz, claro, e também o contato de meu corpo e todos os meus sentidos.

No momento da ideação, senti que as imagens inventadas de Thereza precisavam manter uma vasta margem para às incertezas, às indefinições, ao que não se sabe dela. Nessa busca, havia a recusa à tentação da forma absolutamente definida, afinal sendo a intenção ter alguma identidade imagética para se dizer “eis Thereza”, ela precisa ser da natureza das identidades: vivas, presentes, flutuantes. Por isso a água, com seus acasos, é o elemento das criações, e onde acredito que a própria Thereza manifesta seus gestos, contornando algo e dizendo “estou aqui”.

A série “Thereza” surge assim com seus corpos aquosos, tal o rio que se mostra diferente a cada vez que o olhamos.