Elisa Elsie

Elisa Elsie é fotógrafa, artista visual, pesquisadora, mãe e nordestina. Há 11 anos investiga a maternidade por meio da fotografia e da memória. Doutoranda e mestra pelo programa de Pós Graduação em Estudos da Mídia (UFRN) — com sanduíche na Universidad Complutense de Madrid (bolsista Capes) — e graduada em Comunicação Social (UFRN). Em 2025 participou da exposição “The Potiguares” no Centro Cultural do BNB, Fortaleza (CE) e em 2024 integrou a exposição “Sou definida pelo que não sei”, na Pinacoteca (RN). Foi curadora da ExpoContemporânea 2021 e em 2020 fez parte da comissão de seleção do Atlas da Fotografia Emergente Potiguar. Sua primeira exposição individual, “Refugo” (2017), foi realizada através do Edital da Galeria Sesc/RN. É fundadora do Duas (Natal/RN, 2011), espaço cultural de fomento à fotografia e às artes visuais. Foi selecionada duas vezes pelo edital de Intercâmbio e Difusão Cultural do Minc e já participou de exposições coletivas no Rio de Janeiro, Nova Iorque, Salvador, Natal e Fortaleza.

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Eliza, em busca da mulher de onde vim - 2022-2025 

Fotografia e colagens digitais / 10 / Eliza Raulino é minha avó paterna. Mulher nordestina e sertaneja com poucos registros fotográficos. Não nos conhecemos, ela partiu onze anos antes da minha chegada. A experiência com a maternidade e a atual pesquisa do doutorado tem me levado até ela. Busco origens, raízes, histórias, fragmentos, apesar das lacunas e vazios, construo parte da história dessa mulher que esteve grávida por mais de dez anos, vivenciou catorze partos vaginais e criou 13 filhos. Revirei álbuns, diapositivos e memórias, em busca da cidade de seu nascimento, Martins (no Rio Grande do Norte), de 30 anos atrás — quando eu era criança e visitava a região com frequência. Busquei também imagens de 80, 90 ou 100 anos, quando Eliza morou na casa do Sossego (região que pertencia ao Município de Martins até a década de 1990). Imagens vistas, outras inventadas, me aproprio de memórias pessoais e alheias. Uma imagem nunca é uma realidade simples, alerta Rancière. Tento dar uma mordiscada nesse passado de tantos apagamentos e arquitetado no enredo de todos para quem sabe reencontrar ou reconstruir os sentidos dessas imagens, e a partir delas elaborar novas fotografias. Um presente e futuro de costuras refeitas, ou um presente eterno, como se fosse possível instalar um passado e um presente contínuos. Durante anos quis retornar à casa onde Eliza nasceu e viveu até a adolescência. A mesma casa do Sossego onde meu pai, quando criança, passou férias, assim como eu também. Voltei em julho de 2022 e mergulhei em um açude de lembranças. Fotografei. Relembrei a infância ao lado de irmãs e família ao mesmo tempo em que pensava como minha avó teria vivido ali. Iniciei também uma nova história com meu filho, ao visitar pela primeira vez o local. Uma trama que permeia cinco gerações dentro de uma casa centenária. Eliza me deu nome e ancestralidade. Vim dela, assim como, e principalmente, da minha mãe, Cíntia. Uma linha de mulheres que segue amarrando corpos e ausências ao longo da história. Sigo investigando trajetórias, sobrepondo passado e presente, tecendo tempos, afetos e ausências. O ato de fotografar como uma forma de revisitar e reinventar essa herança, entre real e imaginado, criando um espaço contínuo onde é possível um roçar de gerações.

O leite do Fim - 2021-2024

Fotografia / 11 / O nascimento do meu filho criou um novo tipo de tempo. As demandas da criança conduziram (e conduzem) a vida assim como constroem uma nova trajetória. A maternidade exige presença física e emocional, mesmo quando o corpo não alcança. Impossível ignorar os atravessamentos da maternidade contínua no trabalho artístico e o consequente sequestro do meu corpo de mulher. Penso na fotografia contemporânea feita por mulheres e suas crias que dialogam com as dificuldades em se ter um corpo-mãe como uma ferramenta de tensionamento da representação tradicional e pretensamente universal da mulher mãe.

As imagens dão um certo contorno à experiência do cuidar. Desestabilizar a maternidade enquanto performance social sob o patriarcado tem sido uma estratégia artística. Nomear o trabalho materno e evidenciá-lo é uma tentativa de revolucionar os conceitos associados à função, ainda tão feminizada na nossa sociedade. Uma das ocupações presente no contexto da maternidade é o da amamentação. Por aqui, o ciclo encerrou-se aos cinco anos e oito meses da criança. Horas não remuneradas tão familiares às mulheres, somadas às horas de sono canceladas e às horas disponíveis para uma boca nem sempre faminta. O corpo disponível e exausto, mas com potencial biológico para produzir leite.

As fotografias performadas são cenas da rotina ao longo do processo de desmame natural e de ações relacionadas ao cuidado. A busca por uma representação visual e conceitual que leve em consideração as particularidades de cada binômio mãe/criança bem como de cada contexto familiar é contínua. Confrontar os padrões ou mesmo ressignificá-los irá exigir um deslocamento de eixos teóricos e imagéticos em direção a um novo lugar no qual há a construção de uma autorrepresentação diferente do que o imaginário coletivo espera de uma mulher que amamenta.

E é para esse lugar que queremos ir juntas.