Leticia Valverdes
"Meus projetos começam com um convite à participação e à reflexão. Um desejo interno e uma curiosidade em processar e compartilhar experiências de vida com outras mulheres. Um registro e um convite para chorar, rir, criar e curar juntas."
Leticia Valverdes, que divide seu tempo entre Reino Unido e Brasil, desenvolve trabalhos autorais há mais de duas décadas. Seu primeiro projeto foi com meninas em situação de rua no Brasil. Seus projetos convidam à participação e colaboração.
Paralelamente, Leticia viajou pelo mundo, especialmente pela Amazônia, para reportagens de stills e documentários (BBC, Discovery, NatGeo, Netflix). Essas experiências aprofundaram seu amor pela floresta e seu povo, assim como seu conhecimento das questões geopolíticas, sociais e ambientais da região. Seu trabalho foi exposto internacionalmente e premiado, incluindo “Emergentes” (Braga), “Portrait of Britain” e “Ian Parry Award”.
Entre seus livros: Vidas Invisíveis (2000), Meus Filhos Agora Sabem (2021), Dear Ana (2022), The Mindful Photographer, Looking at Trees e o future a ser publicado, Everyday Wonder.
Birth Marks-Marcas de Nascença - A partir de 2012
Corrente-Fotografia- Dezenas de fotos-Mães no Brasil e Inglaterra
Todos os meus projetos começam com um convite à participação e à reflexão. Birth Marks nasce desse mesmo impulso: um desejo interno e uma curiosidade em processar e compartilhar experiências com outras mães. Um olhar empático que convida à cura conjunta.
Uma terceira gravidez inesperada me colocou diante de uma busca urgente por um parto digno no país onde nasci. No Brasil, encontrei muitas mulheres na mesma situação: algumas forçadas a trocar de médico nos últimos meses da gestação ao perceberem que nunca lhes seria permitido o parto vaginal desejado; outras submetidas a cesáreas marcadas sem necessidade, controladas pelo relógio de um sistema que transforma o nascimento em procedimento e as mulheres em objetos. Peguei minha câmera, como sempre faço nos momentos que marcam a vida. Assim nasceu Birth Marks, um projeto de escuta profunda que, de maneira sutil e íntima, revela a relação de mães e gestantes com seus corpos e almas.
As imagens registram as transformações universais da maternidade. As mulheres são fotografadas em suas casas ou na natureza, sozinhas ou em grupo, com ou sem seus filhos. São colaboradoras ativas: escolhem como querem ser vistas e escrevem, em primeira pessoa, sobre as marcas físicas e emocionais deixadas pela maternidade. Falam da relação com seus corpos antes e depois, das memórias do parto, das mudanças visíveis e invisíveis que atravessam suas vidas. Alegrias e sororidade mas também depressão, ambiguidade, culpa, leite pingando, marcas na pele e na alma....
E muitas vezes vem à tona o contexto brutal da violência obstétrica no Brasil.
Buscamos revelar o que tantas imagens manipuladas escondem: um corpo real, em todas as suas formas, cores e cicatrizes – um corpo que gestou, pariu, nutriu, mas também se esgotou, se perdeu e precisou se reinventar.
Birth Marks Marcas de Nascença é resistência. É um projeto colaborativo onde as mulheres fotografadas participam ativamente da construção de suas próprias narrativas. Entre imagens íntimas e relatos intensos, queremos dar voz às experiências maternas sem filtros nem idealizações, expondo o cansaço, a ambiguidade, dor e outros sentimentos que o capitalismo patriarcal prefere disassociar da maternidae. Contra a romantização imposta da mãe ideal, devota e incansável, afirmamos a maternidade real, complexa e subversiva.
Retratos Pintados - 2011
Fotografia e pintura-15 imagens
Este projeto nasceu da mistura de memória e afeto. Na casa antiga de madeira dos meus avós, das coisas mais preciosas eram as fotografias pintadas que adornavam com orgulho as paredes simples. Eram imagens grandes que me fascinavam por sua qualidade pictórica e sua aura quase mágica. Décadas mais tarde, trabalhando em Londres com mães adolescentes e mulheres refugiadas, essas lembranças voltaram com força.
Antes da fotografia colorida ou das imagens geradas por computador, artistas ofereciam seus serviços às famílias que desejavam cor e status em seus retratos. Podiam rejuvenescer rostos, vestir os retratados com roupas luxuosas e até trazer os mortos de volta à vida. Hoje, na era do Photoshop, essa prática desapareceu – mas sua essência ainda ressoa.
Foi com essa inspiração que, em parceria com uma ONG em Londres, propus a jovens mães e mães refugiadas um mergulho nessa tradição. Através de uma série de oficinas, exploramos estilos de retratos, das pinturas dos “Antigos Mestres” à fotografia contemporânea. Visitamos museus como a National Gallery e a National Portrait Gallery. E então, juntas, criamos nossas próprias imagens.
As participantes, acostumadas a serem retratadas de forma negativa pela mídia, carregavam uma certa relutância em estar diante da câmera. Mas Retratos Pintados foi um convite para que assumissem o controle de sua própria imagem. Fotografamos em estúdio, com o grupo ajudando na iluminação e composição, e depois pintamos sobre as fotografias, recriando a tradição vernacular.
Mais do que um exercício técnico, este projeto se tornou um espaço de discussão sobre representação, percepção, dignidade e orgulho. Neste processo catártico de desaceleração e auto-compaixão as meninas e mulheres mães se reconheceram em novas narrativas, ressignificaram suas próprias histórias e reivindicaram o direito de serem vistas com respeito e beleza, uma pincelada por vez.



























