Marisi Bilini

Marisi Bilini é psicanalista, psicóloga clínica e  fotógrafa, nascida no Rio Grande do Sul.

Utiliza a fotografia autoral para expressar-se artisticamente, onde dialoga com a psicanálise, a poesia, o cinema e a literatura. Seu processo criativo está atravessado ainda, por sua escuta clínica.

Pesquisa a partir do referencial psicanalítico de Freud à Lacan sobre arte,  imagem, vazio e inconsciente na produção fotográfica de artistas visuais, bem como, sobre como esses trabalhos fazem laço  com o outro.

Através da imagem, tece narrativas que convocam os leitores a mergulharem em si, tramando-se nas mais distintas questões e emoções de ser sujeito, como a falta, a dor, a memória, o desejo, as perdas, as singelezas, as alegrias, os encantos, a pulsão de morte e a pulsão de vida. 

Sua fotografia é, para além disso, um convite à fantasia!

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A mãe morta - 2023

Fotografia digital em preto e branco / 30 fotografias 

Na série “A mãe morta”, a fotógrafa e psicanalista Marisi Bilini relaciona-se livre, poética e imageticamente com o conceito de “mãe morta” utilizado pelo pós-freudiano francês André́ Green, e evidencia as faltas, as dores, os traumas, os medos, mas também fala dos desejos, dos sonhos e da sensibilidade que nos habita enquanto seres humanos, em nossas transmissões geracionais.

O termo “mãe morta” cunhado pelo psicanalista refere-se não à morte real da mãe, mas sim, de sua morte psíquica, que a faz figura átona, distante, quase inanimada, sem brilho nos olhos. Nessa perspectiva, Marisi cria suas imagens ancoradas na perspectiva da filha(o) e suas consequências ao não encontrar colo, ainda dependente dos investimentos da figura materna.

Suas imagens nos alcançam com um silêncio perturbador. Uma sensação de vazio nos envolve e sufoca em cenários de medo, perigos e inocência. Um amálgama de dor e suavidade pulsa, pulsa vida, pulsa morte. 

Entre ninhos e emaranhados, amparo e solidão, mãe, filha, e uma filha que se torna mãe. Na ambiguidade dos sentimentos humanos, a dor chega no assombro de reconhecer imagens que povoam nossos pensamentos, quase como se fossem lembranças cinematográficas onde nos confundimos com o personagem do filme. 

Contudo, a ternura chega como em um sonho feminino, no limiar entre ser e/ou ter uma mãe, e perceber na construção poética a presença fluida da água como elemento de ambientes de vida e nascimento, gestação, renovação de ciclos, onde os limites ou a falta deles irremediavelmente nos levarão a reconhecer na travessia narrativa, pensamentos que constroem nossos afetos e sensações.

É na travessia, no movimento, no enfrentamento, na força de seguir um desejo que a autora tece sua poesia, e nos leva por seus contrastes de quem abandonou uma floresta escura para alçar voo. (Lucila Horn)