Marta Suzi

Nascida em uma família sem predileções fotográficas, encontrou na escuta seu primeiro exercício de imagem. As histórias do pai e a oratória da avó Júlia ensinaram-lhe a compor mundos, primeiro com os sons, depois com as formas. Entre enciclopédias e a imensidão da natureza, desenvolveu um olhar atento ao detalhe e ao invisível.

Para ela, a fotografia é uma forma de relação com o mundo, um modo de acessá-lo e compreendê-lo. A imagem permite tocar o desconhecido, alcançar lugares internos e externos. Seu olhar investiga como o ser humano ocupa e transforma o espaço ao seu redor. Criar um registro é deixar um vestígio da experiência no mundo.

Dedica-se à fotografia expandida, criando intervenções e recriações nas artes visuais. Utiliza imagens autorais e de álbuns de família, explorando seus vínculos emocionais. Recorre a textos e fotofilmes para ampliar narrativas e articular memória, identidade e tempo.

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Um Colo sem memória - 2025

Dados Técnicos: fotografia analógica digitalizada com intervenções e colagens em papel vegetal | Qtd: 10 (dez)

Quantas vezes fui carregada nesse colo?

Há um instante capturado, uma imagem única. A única. Frágil como a lembrança que não se sustenta no tempo. Um toque. Um momento. Um vestígio de afeto. Mas será que foi realmente assim? Ou apenas uma aparição fugaz, uma prova errante de que um dia houve contato?

Este trabalho nasce do abandono. Do vazio que se instala quando não há laço, quando a ausência materna não permite a construção de uma história. Uma relação frustrada, sem romantização, sem culpabilização e sem o direito ao vínculo. Ela me deu a vida, mas me negou o amor.

A fotografia que resta é um corpo falho, incompleto. Uma imagem precária, não só pelo desgaste do tempo, pela qualidade baixa, pelos grãos dispersos na superfície, mas pelo que ela carrega e, ao mesmo tempo, nega. Ela registra um colo, um toque, mas não confirma um laço. Sua fragilidade está na impossibilidade de sustentação: a única prova de um afeto que talvez nunca tenha existido.

Não há outras fotos, não há registros de continuidade. Apenas essa imagem e sua repetição, a tentativa de esticar o tempo, de tocar o que já não está. O lamento se impõe, e com ele, a dor, a solidão, o buraco de ser órfã de mãe viva.

A memória é uma reconstrução contínua, um tecido cheio de lacunas e remendos. Mas há fendas que não podem ser preenchidas, imagens arrancadas, páginas rasgadas. O que não coube na memória ficou marcado no corpo. As fissuras nas fotografias dão o tamanho das cicatrizes invisíveis que carrego. Basta lembrar de tocá-las.

Quantas vezes fui carregada nesse colo?