Paula Huven

Fotógrafa, artista, pesquisadora, mãe de duas meninas. Nasceu em Belo Horizonte (1982), vive no Rio de Janeiro. Doutora em Artes pela UFMG, contemplada com o Prêmio UFMG de Teses 2023. Sua criação artística parte de experiências íntimas e subjetivas, investindo no jogo entre o visível e o sensível para dar forma às emoções, afetos e sensações que nos vinculam uns aos outros e ao mundo. O traço autobiográfico de seu trabalho se desdobra nas práticas participativas que propõe, dando ênfase à experiência da mulher. Expõe regularmente desde 2008, como no Salon PhotoDoc Paris; Museu de Arte do Rio; Festival de Fotografia Callao Monumental no Peru; PhotoVisa Russia, Festival Foto em Pauta Tiradentes, Foto Rio. Recebeu o Prêmio Funarte Mulheres nas Artes Visuais e foi selecionada nos prêmios Pierre Verger, Conrado Wessel, Diário Contemporâneo e PhotoVisa Russia. Publicou os livros "Devastação” (2016) e "Reativar o vivo, atravessar a floresta:corpos, imagens, sonhos" (2024).

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Retrato da Artista quando mãe - 2021-2023

10 fotos de celular

Li, certa vez, que para ver a ilha é preciso sair da ilha. Em uma canção escuto: mas como é que faz para sair da ilha? A experiência da maternidade é um ilhar-se. A casa vira o mundo, cercado de distanciamentos e abarrotado de infinitas e repetitivas tarefas de cuidado. Um movimento espiralado vertiginoso que parece nos levar cada vez mais para dentro de um labirinto de onde é difícil sair e onde é fácil perder-se de si. Isso pode durar algumas semanas, meses, anos.

Quando minha segunda filha começou a andar e a ir para a creche, veio a pandemia do Covid-19 e o tempo de dedicação total se estendeu. O trabalho de cuidado passou a ocupar a maior parte dos dias. Restavam as noites, com o corpo exaurido e as emoções à flor da pele, para fazer qualquer outra coisa.

Encontro, no álbum do meu celular, essas fotografias feitas por Maya, minha filha, aos 4 anos. Vejo-me imersa no ambiente e nas tarefas domésticas, exausta, feia, alienada de mim, do meu trabalho como fotógrafa e artista – aqui realizado por ela. Através do olhar da milha filha, pude ver a ilha e então ser arremessada ao desejo por me reencontrar para além das paredes da casa e da maternidade. Reconheço meu prazer em ser mãe – mas o prazer materno está longe de ser tudo o que sinto.