Tami Orlando
Mãe solo desde a gravidez, fotógrafa há quase 15 anos, formada em Artes, com especializações em Alternative Photography (Cambridge, 2013), Fotografía Documental (Bogotá, 2018) e Fotoperiodismo (Bogotá, 2018). Após ter o meu filho em 2020 e ser atravessada arrebatadoramente pela maternidade e tudo que envolve ser mãe numa sociedade machista e patriarcal, não vi outro caminho a não ser abraçar minha nova realidade e começar a trabalhar com e para outras mães. Me dedico desde então à fotografia de bebês e de família e a projetos que envolvem gestação, saúde mental materna e primeiros cuidados com os bebês. Meu foco é a maternidade, vínculo mãe e filho/a e tudo que envolve essa relação no espaço íntimo e coletivo. No momento que escrevo minha biografia, meu filho de 4 anos me chama insistentemente e é esse caos diário que utilizo como força para executar meu trabalho artístico além do trabalho comercial que nos sustenta financeiramente.
Na hora do banho - 2023-2025
“Mamãe, como o banheiro tá arrumado de manhã?
-Eu arrumo. Achou que fosse mágica?
-Achei”
Tive uma gravidez conturbada. Morava na Colômbia, engravidei de um homem abusivo e aos 5 meses de gestação consegui voltar para o Brasil. Depois de uma relação que me destruiu física, mental e financeiramente, tive que recomeçar do zero. Não consegui curtir a gravidez, não tirei fotos, não conversei com meu bebê, não fiz enxoval, não cumpri protocolos. Os 4 meses restantes de gravidez que tive no Brasil foram para me reerguer mental, física e financeiramente antes que eu virasse mãe.
No turbilhão de depressão, emoções e devaneios sobre o futuro, entendi que a única certeza que eu tinha na minha vida, além da maternidade por vir, era a fotografia. E se eu não voltasse a ela, minha vida não andaria.
Quando meu filho nasceu, eu voltei a fotografar. Como mãe solo, estar com meu filho de quase 4 anos e meio, durante 24 horas por dia, dentro do meu apartamento super pequeno, é a minha rotina.
A fotografia me ajuda a estar presente mesmo em momentos de caos ou exaustão profunda. E a medida que meu filho foi crescendo, a hora do banho começou a ser um respiro no meio do caos. É o momento que eu sei que tá tudo sob controle, por mais que depois eu tenha que lidar com a bagunça. É o momento que eu posso olhar pro meu filho e contemplar. É o momento também que muitas vezes eu pego a minha câmera e crio.
Fotografar meu filho no banho foi a maneira que encontrei de reviver e não deixar morrer meu pensar e fazer artístico, em um ato desesperado de sair do sufocamento que a maternidade trás para a vida das mulheres.
Como fazer arte na maternidade com tão pouco tempo ocioso e recursos financeiros para me dedicar à minha criatividade? Como voltar a ocupar os espaços artísticos tendo que cuidar de um ser humaninho, sendo que esses espaços não acolhem crianças? São questões que eu ainda não tenho resposta, mas tenho tentado resistir com a minha arte… na hora do banho.









